Daniel Almeida: Queremos acordo para Câmara funcionar
PCdoB na Câmara – Qual é o pano de fundo da eleição do sucessor de Cunha na Câmara?
Daniel Almeida – Este período legislativo foi marcado pela presença de Eduardo Cunha, o que é uma tragédia. O Poder Legislativo perdeu substância e a capacidade de ser um espaço de interlocução com o conjunto da sociedade. Foi marcado pelas manobras, pela corrupção, pela chantagem e pelos achaques em meio a uma onda de denúncias. Há um ponto comum em torno desses problemas: Eduardo Cunha. Todos compreendem que chegou o fim da linha. Ninguém mais duvida que o mandato dele não sobreviverá e será cassado no plenário da Casa em benefício do Brasil, da sociedade e da Câmara.
PCdoB da Câmara – Quais são os desafios após a renúncia do presidente afastado da Câmara?
Daniel Almeida – É preciso encerrar esta etapa e impedir que a presença de Cunha continue na Casa após o fim do seu mandato. Ele não pode continuar conduzindo os trabalhos por meio de um preposto. Não é possível que Cunha ainda tenha condições de manobrar. Com a conclusão desse processo, queremos ver que forças políticas se mobilizam, com qual agenda e objetivo para superarmos juntos esta fase. Mais do que possível, isso é necessário para que tenhamos condições de ter uma candidatura temporária à Presidência da Câmara com mandato até fevereiro de 2017.
PCdoB na Câmara – Como deve ser o perfil do presidente da Casa para este mandato-tampão?
Daniel Almeida – A candidatura para a presidência da Câmara deve representar forças comprometidas com a Casa. Deve garantir a retomada mais normal possível dos trabalhos cotidianos do Poder Legislativo. É preciso dar oportunidade para que os temas sejam debatidos nas comissões. Hoje é quase tudo levado ao Plenário sem discussão prévia. As relatorias dos projetos devem ser distribuídas e a composição das comissões devem ocorrer conforme a representatividade partidária. Queremos a normalidade de funcionamento em um poder que é diverso e plural. Infelizmente, não tem sido assim.
PCdoB na Câmara – A estratégia para a eleição envolve acordo com partidos da antiga oposição?
Daniel Almeida – A oposição atual, que é composta pelo PT, PCdoB, PSOL, Rede e PDT, tem papel muito importante e busca se unir em defesa da democracia. Não terá, entretanto, maioria para derrotar o chamado Centrão, o candidato de Cunha e do interino Michel Temer (PMDB). Por essa razão, é necessário dialogar com parte da oposição de ontem (DEM, PSDB e PPS). O objetivo não é estabelecer uma agenda e compromissos com o governo ou com esses setores. Mas todos podem se unir para termos um funcionamento mais normal da Casa, respeitando-se nossas diferenças e propiciando o debate.
PCdoB na Câmara – O que está por trás desse entendimento amplo com outros partidos?
Daniel Almeida – Um elemento central para esse conceito de recuperação do funcionamento normal da Casa é entendermos que não é possível, em um governo transitório, em meio ao processo de impeachment e à crise econômica e política, pautar uma agenda densa de desmonte do Estado Brasileiro. Não é correto nem justo, porque não há a legitimidade do voto popular. Por isso, é fundamental que esses dois polos da política brasileira possam encontrar algum grau de entendimento para a escolha desse presidente da Câmara.
PCdoB na Câmara – Na sua avaliação, é viável acordo com partidos, como DEM, PPS e PSDB, para evitar que um candidato de Cunha vença o pleito?
Daniel Almeida – O fundamental é percebermos que o maior mal é a presença de Eduardo Cunha, representada e perpetuada pelo Centrão para agora e para o futuro. Um acordo geral com setores mais à direita não é possível. Mas um acordo mais específico, restrito ao compromisso de fazer a Câmara funcionar com o mínimo de normalidade, acho que é viável. Devemos elaborar essa possibilidade e fazer um esforço para construir um ambiente favorável para esse caminho. Esta Casa não pode ser vista pela sociedade como algo inútil, com funcionamento caótico e que as coisas só acontecem no grito. Esse ambiente não pode prevalecer.
PCdoB na Câmara – Esta é uma visão da esquerda ou da Bancada Comunista?
Daniel Almeida – O PCdoB tem este conceito e tem dialogado com os partidos parceiros na construção desse caminho. Já tivemos um avanço importante com o PDT. Setores do PT estão refletindo sobre o assunto. O PT sempre tem um tempo mais longo para maturar e deliberar sobre suas decisões internas. Nós respeitamos isso. Mas cada vez mais essa tese tem ganhado corpo na Casa. A tendência é evoluirmos nessa direção. Se não tivermos capacidade de fazer isso, vamos entregar a Câmara ao Centrão? Isso significa manter a presença de Cunha. O Centrão está comprometido com a agenda de Temer. Se vencerem a eleição da Casa, a ideia é transformar a Câmara em um rolo compressor. Ninguém mais tem dúvida de que a agenda de Temer é desmontar o mundo do trabalho, cortar saúde, educação, Reforma da Previdência e acabar com a Petrobras. Não se pode pensar nisso em um momento de grande fragilidade institucional.
PCdoB na Câmara – Há muita resistência em avançar nesta aliança restrita?
Daniel Almeida – Temos de ter o mínimo de confiança entre esses interlocutores. A partir dessa confiança, vamos fechar esses pontos de unidade. É preciso respeitar o ritmo e procedimentos de cada bancada e partido. Achamos que é necessário envolver, além das bancadas, as próprias instituições partidárias. O objetivo é fazer uma reunião com os presidentes de partidos e lideranças mais expressivas do Brasil que entendem não ser possível continuar nesta situação.
PCdoB na Câmara – Na sua história de vida parlamentar, o senhor já havia vivido algum momento semelhante ao atual?
Daniel Almeida – O que vivemos hoje é a prevalência da intolerância, da quebra dos ritos, de um golpe atrás do outro. Tenta se fazer as coisas na marra para se justificar o primeiro golpe. E isso vai fragmentando as relações entre as pessoas e as bancadas. Até mesmo o respeito e o trato parlamentar estão comprometidos. A política vai perdendo. Estou aqui há 14 anos. Nunca experimentei tanta insegurança e desconforto. E a opinião pública vê isso com perda de esperança. Não podemos perder a esperança que nos impulsiona a mudar para melhor.




