“Cuide do seu decoro, que eu cuido do meu decote.” Este foi o grito entoado por servidoras da Câmara na manhã desta quarta-feira (9) em protesto contra o código de vestimenta em análise pela Mesa Diretora da Casa.

A ideia de limitar o uso de trajes “mais sensuais” no Legislativo partiu da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) e é aprovada pelo primeiro secretário da Câmara, deputado Beto Mansur (PRB-SP). Entre as propostas em discussão está o veto ao uso de saias acima do joelho ou roupas com decotes acentuados. Já para os homens, a proposta proíbe o uso de camisetas de time futebol e de chapéus. Além disso, tênis só seria liberado para quem trabalha muito tempo em pé e, ainda assim, sem cores "berrantes".

“O Parlamento tem que se voltar para as questões que são prioritárias e não para as vestimentas das mulheres. Estão invertendo o que é prioridade nesse Congresso”, critica a assistente social Yvone Duarte, do Movimento Estratégico pelo Estado Laico.

Para Tatiana Lionço, uma das organizadoras do protesto, a tentativa de impor regras de etiqueta aos servidores e aos cidadãos que frequentam a Câmara é arbitrária e distante das necessidades da sociedade. “É a imposição de uma cultura e de uma moralidade que não correspondem à diversidade cultural das mulheres que entram nesta Casa. Quem quebrou o decoro não foram as mulheres que transitam aqui. Essa é uma medida legislativa absolutamente descabida. A gente tem um monte de discussões emergenciais para serem tratadas aqui. Esse protesto é uma forma de repudiar a implementação desse tipo de medida”, afirma.

Hoje, de acordo com as regras da Casa, quem transita pelos locais de circulação dos parlamentares deve trajar passeio completo ou uniforme. Apesar de não haver diferenciação de gênero, a cobrança em relação às roupas é mais rigorosa com os homens, que em dias de sessão no Plenário da Câmara, só podem passar pelo Salão Verde, por exemplo, de paletó e gravata. Por se tratar de uma questão administrativa, a proposta não passa por deliberação no Plenário – o que inquieta ainda mais as manifestantes.

A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) também criticou a proposta. Para ela, a ideia de regular as roupas das mulheres é um retrocesso e representa o avanço de uma pauta machista. “Estamos num Brasil com muitas questões a serem tratadas. Nós precisamos evoluir nas políticas públicas, nas políticas educacionais, nas verbas para a saúde. Não é prioridade definir como o cidadão que vem à Casa do Povo se veste, ou uma deputada ou servidora. É “démodé” [fora de moda]. Além disso, nossa pauta é outra. Queremos ampliar a participação das mulheres na política, aumentar seu protagonismo. Essa é a luta que nos mobiliza e não um projeto que traduz esse tipo de visão conservadora”, diz.