Resistência, sagacidade e amplitude orientam ação do PCdoB

Brasília, segunda-feira, 8 de julho de 2019 - 18:32      |      Atualizado em: 12 de julho de 2019 - 11:30

POLÍTICA

Resistência, sagacidade e amplitude orientam ação do PCdoB


Por: Iram Alfaia     |    

A presidenta nacional do PCdoB e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, afirmou, nesta segunda-feira (8), que a resistência com sagacidade e amplitude das forças políticas são questões centrais para o partido na luta contra os retrocessos do governo Bolsonaro. A defesa democracia, da soberania nacional e do crescimento econômico são bandeiras prioritárias nessa batalha.

Portal Vermelho
Luciana Santos faz análise conjuntural em seminário do PCdoB realizado em Brasília

Na conferência de abertura do seminário “Os desafios da ação política e da estruturação partidária”, realizado pelo PCdoB, em Brasília, no auditório do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), Luciana Santos fez uma análise conjuntural do atual momento político brasileiro.

Segundo a dirigente, a resistência ao governo cresce em meio a dois fatores políticos fundamentais: o escândalo envolvendo a revelação de diálogos entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da Operação Laza Jato e a situação caótica da economia brasileira.

Luciana considera que é preciso ficar claro para a população que os vazamentos das conversas entre o então juiz e o procurador Deltan Dallagnol, divulgadas pelo The Intercept Brasil, em parcerias com outros veículos de comunicação, demonstra que o atual ministro da Justiça usou a Lava Jato como projeto político eleitoral e pessoal.

“Ele virou ministro e queria ser presidente da República, quebrando o devido processo legal”, diz ela, referindo-se à determinação de Moro em prender Lula para beneficiar Bolsonaro nas últimas eleições. Portanto, o que está em jogo é a defesa do estado de direito e o devido processo legal.

“Os vazamentos feitos pelo The Intercept tornam mais equilibrada a relação de Moro com Bolsonaro. Agora é Bolsonaro que socorre a Moro. De igual modo cresce o número de personalidades do mundo jurídico que se manifestam questionando os procedimentos da Lava Jato”, afirmou

Luciana Santos diz que o importante é evitar que o caso vire um Fla-Flu, isto é, não se trata de um assunto a favor e contra a corrupção.

“Temos que fazer esse debate com amplitude. Não se trata de dois polos. Nós precisamos colocar o interesse do Brasil contando com todos os brasileiros e setores democráticos que sabem o significado que tem as instituições fortalecidas para um projeto de país democrático”, alertou.

"A noção de Frente Ampla que temos defendido coloca no centro de suas preocupações a questão democrática, por ela ser ampla em todas as suas vertentes. Não deixam de compor este quadro a defesa da soberania e do desenvolvimento nacional. No entanto, é na questão democrática que melhor se pode estabelecer pontes com outros atores políticos", prosseguiu.

A vice-governadora diz que a sagacidade está principalmente em conseguir explorar contradições entre as forças que poderiam aderir ao governo Bolsonaro. A defesa da democracia continua sendo a bandeira com maior capacidade aglutinadora

Economia

“Não há uma luz no fim do túnel”, disse Luciana Santos sobre a solução para o desemprego e retomada do crescimento. Prossegue: “Aí reside uma base objetiva de se estabelecer contraofensiva”.

Embora tenha capital político, Bolsonaro tem apoio de apenas um terço da população em seis meses de governo. Nesse período, houve o aumento de mais um milhão de desempregados.

“O processo de desindustrialização é acentuado e não há medida contracíclica. Pelo contrário, na proposta da reforma da previdência chegaram a colocar dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) para financiar a previdência. No BNDES, desde o governo Temer, os recursos da carteira que financiam o setor produtivo, voltam para o tesouro para financiar superávit primário para a dívida pública”, argumentou.

No início dos anos 1980, o setor das indústrias atingia seu pico representando 22% do PIB. Atualmente, as estimativas recuaram para 10,4%, e ela pode cair para um número inferior a dois dígitos já em 2020.

Na sua visão, Bolsonaro é o governo do desmonte nacional. Para além da reforma da previdência, a agenda do governo se restringe em ampliar as privatizações com a Petrobras sendo fatiada, desregulamentação de setores estratégicos da economia e o estabelecimento na forma como se organiza o Orçamento da União.

“Há uma brutal contração de investimentos”, afirmou a vice-governadora. Ela lembrou que somente com os gastos ligados ao Programa de Parceria Público Privada (PPP) e Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) se produziu uma queda de R$ 21,3 bilhões de 2014, para R$ 4,8 bilhões, no primeiro trimestre deste ano, o que representa uma queda de 78%.

“O quadro é de total precarização das relações do trabalho. É cada vez maior o número de pessoas trabalhando sem nenhum vínculo formal de trabalho e de forma intermitente. Redução do valor real do salário. Ter um emprego com direitos assegurados se tornou um privilégio”, acrescentou.

Ela rebate a narrativa usada por Bolsonaro de a culpa do quadro econômico é dos governos anteriores. Em janeiro, a presidenta do PCdoB lembrou que a perspectiva de crescimento era de 2,4% do PIB. A expectativa em 2019 se encontram na casa de 0,87%, segundo o Banco Central.
Luta politica

Segundo a presidenta do PCdoB, o principal esforço do partido na elaboração se desenvolve em conjunto com a prática. “E no caso em concreto ele se dá na realização do enfrentamento ao governo Bolsonaro, e sua agenda ultraliberal, autoritária e antinacional (...) O núcleo central da tática continua o mesmo: resistência, amplitude e sagacidade”, afirmou.

Ao destacar figuras políticas importantes do partido como o governador Flávio Dino (MA), que exerceu papel importante na articulação de governadores do Nordestes que se posicionaram contra alguns pontos da reforma da Previdência, Luciana Santos disse que a resistência tem sido feita nas ruas e no parlamento.

Nesse ponto, ela destacou também a direção e coordenação pela UNE do maior vetor de mobilização de massa no país: os protestos contra os cortes de verbas das universidades brasileiras.

Também destacou o trabalho do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) na articulação do apoio a Rodrigo Maia (DEM-RJ) nas eleições para a Mesa da Câmara dos Deputados. O PCdoB acabou assumindo posições importantes como as presidências da Liderança da Minoria, Jandira Feghali (RJ), da Comissão do Trabalho, Professora Marcivânia (AP) e a vice-presidência Comissão de Ciência e Tecnologia, Márcio Jerry (MA).

A apoio a Maia, segundo ela, ajudou na luta para derrotar o chamado projeto anti-crime de Sérgio Moro que visava legitimar as arbitrariedades cometidas por ele na Operação Lava Jato como o abuso da delação. Luciana também se referiu a alguns avanços na reforma da previdência como a retirada da capitalização do texto. "Isso enfureceu Paulo Guedes (ministro da Economia)", disse 

Governo Bolsonaro

Luciana Santos diz que o Bolsonarismo é um fenômeno que envolve vários vetores e fatores. “Estamos completando nesta semana seis meses de governo Bolsonaro, em uma conjuntura marcada por tensões, instabilidades e imprevisibilidade. O governo se caracteriza pelo seu caráter autoritário, ultraliberal na economia, retrógado nos costumes e pela adoção de políticas neocoloniais e posturas de alinhamento e capitulação diante dos EUA”, argumentou.

Para ela, Bolsonaro procura encarnar o que ele conseguiu na campanha: o candidato anti-sistema, sendo ele a expressão máxima do sistema, da velha política.

“É um governo que procura se confrontar com a política e com as instituições, com qualquer tipo de tradição democrática (...) É um governo que age de maneira pensada utilizando como método o caos e o confronto”, argumentou.

Após as manifestações públicas em seu apoio, segundo Luciana, Bolsonaro buscou recuperar a iniciativa política. A seu modo, realizou uma primeira reforma ministerial com vistas a reorganizar o governo, colocando pessoas de confiança do núcleo familar.

“Generais demitidos, uns chamados de incompetentes, outro de sindicalista. Mudança na articulação política. E até um major da PM virando ministro. É possível que o governo ganhe uma dinâmica nova, contudo o mais provável é que continue realizando o enfrentamento ao Congresso e as demais instituições”, diz.

Ela afirmou que a disputa entre os núcleos de poder teve mesmo que momentaneamente um desfecho. “O Clã sai fortalecido. Bolsonaro é quem manda. Demonstra que não será tutelado e que seu núcleo duro é o familiar. Mesmo com todas as tensões que devem ser exploradas, e que aqui não cabe nos aprofundarmos é nítida a existência de uma aliança muito forte, entre militares, Lava Jato e Bolsonaro”, diz.
 









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