Violência atinge mais mulheres, pobres e negros

Brasília, quinta-feira, 8 de junho de 2017 - 13:58      |      Atualizado em: 14 de junho de 2017 - 11:45

DESIGUALDADE

Violência atinge mais mulheres, pobres e negros


Por: Iberê Lopes

A cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Lançado esta semana, o Atlas da Violência 2017, apresenta este e outros indicadores de uma cruel realidade para jovens negros e mulheres, grupos mais vulneráveis e desprotegidos pelo Estado.

Fernando Frazão/ Agência Brasil

O estudo apresentado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), na segunda-feira (5), revela que jovens, negros e pessoas de baixa escolaridade estão entre as principais vítimas de mortes violentas no país. 

De acordo com as informações do Atlas da Violência, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência. “Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra”, aponta o estudo.

“Em 20 anos, uma geração, mais de 1 milhão de pessoas desapareceriam. E o perfil é esse, de jovens da periferia”, acentua o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA). Para ele, os dados são “chocantes” e a sociedade trata as vidas de maneira diferenciada quanto a classe social e as matrizes étnicas.

“Quando há uma chacina num bairro periférico ganha uma nota no rodapé dos jornais. Quando alguém da classe média é assassinado a notícia tem outra dimensão. É incrível como estamos perdendo a capacidade de nos indignar”, lamenta o parlamentar baiano.  

No ano de 2015, a participação do homicídio como causa de mortalidade da juventude masculina, entre 15 a 29 anos de idade, correspondeu a 47,8% do total de óbitos (e 53,8%, se considerarmos apenas os homens entre 15 a 19 anos).

Segundo o presidente do Ipea, Daniel Cerqueira, “o aumento da letalidade atingindo jovens do sexo masculino e afrodescendentes revela-se mais elevado do que a média, apontando para um quadro de desigualdade ainda presente em nossa sociedade”.

“Se a juventude é o futuro da nação, estamos conspirando contra o nosso ao condenar jovens a uma vida de restrições materiais e de falta de oportunidades educacionais e laborais”, reflete Cerqueira. Para ele, a violência é também consequência da retração na economia e do empobrecimento da população.

Atualmente, o Brasil tem 14 milhões de brasileiros sem ocupação. Os números são de fevereiro a abril deste ano. Se comparado com o trimestre anterior, o aumento foi de 8,7%, revela o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para a presidente nacional do PCdoB, deputada Luciana Santos (PE), é inevitável que o primeiro impacto da crise econômica seja o aumento da violência em nosso país. “Infelizmente, nós vivemos um estado de opressão, onde aqueles que mais precisam do Estado se veem abandonados. Precisamos denunciar que essa violência tem classe, tem cor e tem gênero”, afirma a dirigente comunista.

Se fica evidente o recorte racial e de idade da violência no Brasil, quando comparamos a mortalidade de mulheres não-negras e negras os índices apresentam um cenário assustador.

Enquanto o número de homicídios entre brancas, amarelas e indígenas caiu 7,4% entre 2005 e 2015, para as mulheres negras o índice subiu 22%. São 5,2 mortes para cada 100 mil mulheres negras. Isto é, 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil no último ano eram negras, evidenciando a conexão entre desigualdade de gênero e racismo.

No mesmo período a evolução dos homicídios no Brasil para a parcela da população historicamente marginalizada e excluída socialmente é impactante. O quadro nacional de quase uma década atrás, em 2007, mostra uma taxa de mortes de 48 mil. A partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, aconteceram quase 60 mil homicídios no país, em 2015.

Na avaliação do Ipea, o Estado brasileiro demonstra “incapacidade e descompromisso” com o planejamento e execução de projetos no campo da segurança pública “minimamente racionais, efetivos e que garantam os direitos de cidadania”. O Atlas do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mapeou em 2015, 59.080 homicídios. Isso significa 28,9 mortes a cada 100 mil habitantes.

O estudo mostra os índices e as taxas de homicídio no país, detalhando por região, estado e municípios com mais de 100 mil habitantes. “Apenas 2% dos municípios brasileiros (111) respondiam, em 2015, por metade dos casos de homicídio no país, e 10% dos municípios (557) concentraram 76,5% do total de mortes”, destaca a publicação.

Lançado no início desta semana, o Atlas da Violência 2017 possui um portal eletrônico. Para conferir a íntegra dos dados, acesse: http://ipea.gov.br/atlasviolencia/









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