Combate à corrupção não admite comportamento corrupto

Brasília, quarta-feira, 26 de junho de 2019 - 11:27

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Combate à corrupção não admite comportamento corrupto


Por: Christiane Peres

Em audiência na Câmara, o jornalista Glenn Greenwald reafirma a veracidade do material envolvendo Sergio Moro e Deltan Dallagnol e diz que publicação das reportagens tem o objetivo de fortalecer o combate à corrupção no Brasil.

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Enquanto Moro se escondia numa viagem oficial aos Estados Unidos, o jornalista Glenn Greenwald foi à Câmara dos Deputados nesta terça-feira (25) falar sobre o conluio entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça do governo Bolsonaro e o procurador Deltan Dallagnol, da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, para fraudar a democracia e agir com parcialidade nas decisões proferidas nos processos julgados na operação.

Durante mais de seis horas, Glenn fez a defesa da liberdade de imprensa e da transparência e reafirmou a autenticidade das conversas vazadas entre o ex-juiz e procuradores da Lava Jato, no aplicativo Telegram, que estão sendo publicadas pelo site The Intercept Brasil e outros veículos de imprensa, desde 9 de junho.

Para Glenn, a publicação das conversas fortalece a luta contra a corrupção no Brasil – principal mote da Operação Lava Jato. “Nosso papel como jornalistas é informar o público. É impossível lutar contra a corrupção usando um comportamento corrupto”, afirmou o jornalista.

Ao sofrer ataques por parte de alguns integrantes do governo, Glenn reafirmou que a Constituição protege e garante a liberdade de imprensa contra os ataques que Sergio Moro e o partido do governo estão tentando fazer. “Ninguém tem medo do seu partido [PSL]. Nossa redação, os jornalistas brasileiros que estão agora trabalhando com essa reportagem para continuarmos publicando esses documentos até o final. Nem seu partido, nem o governo do Bolsonaro, nem Sergio Moro podem fazer nada para impedir isso", disse em resposta a uma parlamentar aliada de Bolsonaro e Moro.

A reunião foi marcada pela defesa do trabalho do jornalista e da importância das revelações para o país. 

“Essa sessão é um fato de grande repercussão para o nosso país. É sintomático e simbólico que nós estejamos aqui na presença de um cidadão que está prestando elevadíssima contribuição ao Brasil. E aqui não esteja o ministro Sergio Moro, que inventou, às pressas, uma reunião estranha, marcada por muitas dúvidas. O trabalho de Glenn tem uma envergadura histórica para o Brasil porque permite fazer com que uma série de dúvidas, questionamentos e fatos estranhos em nosso país sejam confirmados”, afirmou o deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA).

O parlamentar protocolou pedido para que Moro seja convocado à Câmara para prestar esclarecimentos sobre a gravidade das mensagens reveladas. Moro deveria comparecer nesta quarta-feira (26), na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), mas viajou para os Estados Unidos. O deputado também protocolou um pedido para que Moro explique detalhes da visita ao país e a agenda cumprida no país americano. As razões da visita aos EUA também são alvo de pedido de informações da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC). De acordo com ela, não há divulgação sobre as atividades de Moro nos Estados Unidos.

“Ministro não tem agenda secreta. Ministro usa dinheiro público e precisa prestar esclarecimentos sobre sua agenda”, disse Perpétua.

O comandante

A líder da Minoria na Câmara, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) também saiu em defesa do jornalista. Para ela, há uma disputa de versões encampadas pelo governo para tentar tirar a credibilidade das informações reveladas. Para Jandira é preciso que o foco se volte para o que importa: Moro.

“O crime não está aqui, no seu trabalho, na sua liberdade de escrever e no direito de exercer sua profissão, no direito de a sociedade conhecer a realidade dos acontecimentos. É grave o que está na rua. O que podemos dizer é que Moro não era juiz, mas o comandante da Operação Lava Jato. Isso é gravíssimo”, disse.

A parlamentar lembrou que um dos principais resultados da operação alterou os rumos políticos do país. “Tirou quem liderava as pesquisas”, lembrou Jandira, em referência à prisão do ex-presidente Lula, que era apontado como o preferido nas eleições de 2018, que acabou elegendo Jair Bolsonaro.

Investigação

Desde que a atuação obscura de Moro foi trazida à tona, a bancada do PCdoB tem defendido o afastamento do ministro de Bolsonaro para que as investigações tenham sequência. Durante a audiência com Glenn Greenwald, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) reiterou o entendimento da bancada comunista.

“Não temos mais dúvidas de que Sergio Moro precisa sair da condição de ministro. Ele precisa ser investigado e como disse o presidente do Senado, quem sabe, ser preso por seus crimes, por sua absoluta venalidade na ação de todos os atos que investigou, que são nulos de direitos”, afirmou Alice.

Parlamentares também estão colhendo assinaturas para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação de Moro na Lava Jato.  

Glenn x aliados do governo

Apesar de sofrer sérios ataques de aliados do governo na rede mundial de computadores, foram poucos os parlamentares do governo que deram a cara a tapa na audiência com Glenn.

A Policial Kátia Sastre (PL-SP) foi uma delas. Em tom elevado, a parlamentar sugeriu que Glenn era um criminoso e deveria sair preso da reunião por publicar as conversas. A deputada, no entanto, assim como o próprio Moro, não questionou em momento algum a veracidade das conversas publicadas.

Em resposta, Glenn Greenwald agradeceu a “coragem” da deputada em, ao menos, fazer as acusações presencialmente. E rebateu o tom acusatório reafirmando que as ameaças vindas da base governista não impedirão que o material continue sendo publicado.

“O que está faltando ao discurso dela? Evidências. Ela traz apenas táticas de acusação. Ninguém tem medo dessas táticas. Nós temos uma redação cheia de jornalistas e estamos reportando tudo. Onde está sua evidência? Eu poderia sair do Brasil e publicar tudo, mas o Brasil tem garantido em sua Constituição a liberdade de imprensa. Ninguém tem medo das ameaças do seu partido”, disse o jornalista.

Conhecida por fazer parte da tropa de choque bolsonarista, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) também foi para cima de Glenn. Questionou a veracidade das informações e o desafiou a veicular todos os áudios durante a audiência.

Em resposta, Glenn afirmou que “jornalistas não recebem ordens do governo de como ou quando devem publicar reportagens” e afirmou que a deputada iria “se arrepender” quando os áudios viessem à tona.

“Nós vamos divulgar os áudios, quando estiverem jornalisticamente prontos, e você vai se arrepender muito de ter pedido isso”, alertou.

Sobre os próximos episódios da série de revelações, Glenn deu um pequeno spoiler: “A postura do Deltan foi tão subserviente que vocês vão sentir vergonha quando for divulgada”.









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